I
Não sei por que as coisas aconteceram dessa forma. Ela disse que me amava, mas do nada li algumas mensagens do telefone móvel dela.
Maldita hora que inventaram essas redes sociais, pois agora podemos bisbilhotar a vida alheia com mais facilidade.
Fiquei louco ao ler. Não acreditava em nada. Queria jogar o aparelho pela janela e fugir de todos os problemas. Pensei em até proibir que ela usasse o celular, porém não posso prendê-la nos meus caprichos. Nós necessitamos de liberdade para ir e vir. Quem sou eu para impedi-la de se encontrar com suas amigas no shopping ou ir ao cinema com seus primos. Temos vida social e ponto. Porém, sempre que estávamos juntos, chegavam mensagens de um tal de "B". Só isso, sem nome, sem rosto. Perguntei-lhe quem era a tal pessoa, mas ela não me dizia. Fiquei quieto. Desconfiado e febril.
O ciúme tem o poder de nos cegar e a raiva fala mais alto. Pensei em tentar descobrir a senha do celular da "minha amada", mas não sabia como.
Não estava confortável. Sentia-me triste e não conseguia comer. Eu estava parecendo um esqueleto ambulante.
Um belo dia, minha ex resolve pedir pizza e me deixou sozinho na sala de sua casa. Seu pai estava na garagem tentando arrumar seu Pálio. O carro não andava fazia um tempo.
A fome começara apertar e a menina dos meus "sonhos" não chegava. Do meu lado, o celular. Ele fez um ruído. Mensagem chegando. Eu, danado, e com medo para que ela não visse eu pegando seu aparelho, li o pequeno texto com erros de português
" Quero te buscar mais uma vez na escola. Gosto de ficar com vc - bjos!"
Meu mundo caiu! A fome desapareceu. Eu não queria saber de mais nada. Desejava esquecê-la! Dizer não a tudo e a todos!
A garota volta e traz a pizza. Fiquei calado e ela me olhava desconfiada. O tempo passou, terminei de comer, lavei os pratos. Ela me perguntou o que estava ocorrendo comigo. Eu não disse nada, deitei no sofá, fechei os olhos e pensei comigo mesmo: "Essa foi a pizza mais indigesta que comi".
II
Toda hora ela queria saber o que estava acontecendo. Não me deixava em paz. Tive que falar de tudo, toda a verdade.
Disse-lhe que peguei o celular escondido e que li a tal mensagem do B. Ela mudou de cor. Ficou branca e não sabia onde enfiar a cara. Tentou me reprovar, porque eu pegara seu aparelho, mas o som não saia.
Sua boca ficou trêmula. Seus olhos perdidos. Ela foi ao banheiro, as lágrimas começaram a cair e de lá, quase gritando, ela me revelou que o B na verdade se chamava Bruno. Ele era seu professor no colégio e os dois tiveram um pequeno relacionamento. Na época ela era adolescente e ele já era adulto, mais de vinte anos.
A instituição de ensino não aceitou o namoro dos dois. Os pais da minha ex foram chamados para falar desse fato romântico e ele mandado embora.
Fiquei tremendo e não sabia como reagir. Chorei muito. Pedi para que ela saísse da sala e fui até a mochila onde estavam as minhas roupas. Arrumei-as, peguei a chave do carro e, escondido, tentei sair. Porém ela me encontrou no meio do caminho.
Aos prantos, falava alto dizendo que gostava de mim e que não queria mais nada com o outro. Somente amizade.
Não acreditei, pois o texto o qual o rapaz escreveu falava sobre o beijo que eles deram no carro. Ela continuava a mentir. Dizia que ele era gay, pois quando os dois estavam juntos o tal professor chegou a ficar com um garoto.
"Meu Deus!", pensei. Como eu pude acreditar em um ser que se dizia evangélica?
Triste, tirei meus braços de suas mãos e fui embora. Peguei o carro, saí da garagem e voltei para casa desorientado.
III
Tentei esquecer de tudo e prometi a mim mesmo que ficaria sozinho. Ela falava comigo, mas não lhe respondia. Comecei a focar nos estudos e a continuar um trabalho o qual estava desenvolvendo. Perdi mais peso e cada vez que eu olhava um casal na rua me dava raiva.
Não sentia ciúmes de ninguém e não queria estar próximo de uma mulher - há o perigo de se apaixonar.
Mais mensagens chegavam. Pensei em bloquear, mas não consegui. Ela me mandava muitos textos dizendo que estava arrependida e que na igreja ela reviu seus erros. "Será que é verdade?", pensei. "Não vou cair nessa".
No entanto cai e voltamos. Não olhava mais para seu celular e queria acreditar que tudo estava bem. Nosso sexo era bom e gostoso. Nosso carinho era de outro mundo. Gostávamos de ir ao parque e assistir a alguns filmes no cinema. Adorava conversar com seu pai. Tudo lindo e perfeito até que...
Marcamos um encontro na sua casa às 14h, porém quis lhe fazer uma surpresa chegando antes. Péssima ideia, ao cruzar a esquina de sua rua a vi beijando na boca o obreiro de sua igreja. O rapaz fazia parte do grupo de jovens. Era casado e com dois filhos. Quase bati o carro quando vi a cena.
O ódio invadiu meu ser, queria bater nos dois e arrancar sangue da face daquela mentirosa.
Por que voltar comigo sendo que ela estava com outro? Os chifres cresceram na minha cabeça e nunca imaginara passar por isso.
Com essa dor imensa, peguei o carro e me joguei na represa Guarapiranga. Perdi o carro e a vida.
Hoje estou no inferno e minha alma está manchada. Um dos castigos que estou sofrendo é escrever esse texto contando a minha história terrível. Do meu lado o meu anjo da guarda tenta me levar para o céu, porém o demo dá risada da minha desgraça e puxa a minha perna pedindo a todo instante o ponto final dessa história sem fim.